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domingo, 8 de maio de 2011

Simples para respeitar o planeta

(texto adaptado, originalmente publicado no Design Simples)

“Conhecer o adversário é o primeiro passo para vencê-lo”, já ensinava Sun Tzu (estrategista chinês) há 2.500 anos. A boa notícia para os que almejam usar o design como instrumento para combater a devastação da natureza é a vantagem em poder visualizar um inimigo claro: o prematuro descarte das nossas coisas.

Quanto mais duráveis forem os nossos produtos, mais valor terá o nosso dinheiro e menos impacto sentirá o meio ambiente. Projetar para longos ciclos de vida é uma contribuição concreta do designer rumo a um futuro “sustentável”.

Porém enganam-se os que imaginam que a questão da obsolescência se restringe apenas à engenharia. Componentes bem projetados e materiais mais resistentes não serão capazes de conter o pior tipo de deterioração que um produto pode sofrer, aquela que acontece em nossa mente.

A idéia não é nova. Vance Packard, autor do livro “Estratégia do desperdício” apresentou em 1960, o conceito de “obsolescência por desejabilidade”. Esta sofisticada estratégia faz uso do talento dos designers para inocular o vírus da obsolescência planejada. A criação do “modelo anual de automóvel” é o exemplo mais emblemático e que continua mais atualizado do que nunca. Harley Earl, designer pioneiro no desenvolvimento dos “carros do ano”, percebeu a enorme vantagem em convencer os consumidores a levarem algo diferente ao invés de algo melhor.

“A Nissan é uma companhia com muita paixão, e os carros têm esse sentimento. Hoje pensamos em desenhos com formas mais dinâmicas e com espírito de inovação”. Recente declaração de Alfonso Albaisa, vice-presidente de design da Nissan, em reportagem na Folha por ocasião de um lançamento de um novo modelo de carro popular.

Devemos nos opor a esta distorcida visão que uns dizem atender ao mercado mas que também agrada parte da academia. Ambos parecem confundir, convenientemente, a responsabilidade estética com o mero formalismo sem critérios. Por todos os lados somos incentivados a atuar como irresponsáveis estilistas, recebendo em troca o mérito de contribuir para os resultados do cliente, para o aquecimento da economia, estimulando o consumo por impulso.

No final, como sempre, o planeta terá que pagar a conta: escassez de recursos naturais, lixo, contaminação do ar, água e solo. Para resistir a tudo isto proponho um design simples, com a proposta de “respeitar o planeta, reduzindo a poluição e evitando o desperdício”. Para coexistirmos de forma harmoniosa com a natureza, devemos entender o quão simples é seu design. Até a mais bela rosa possui um propósito, uma função e um papel bem definido no eco-sistema.

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Imagem retirada de uma antiga propaganda da Volkswagen com o seguinte slogan: “Before you look at their new ones, look at their old ones”.

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Esta é mais uma exploração das cinco possíveis réplicas para a única pergunta: “Simples pra quê?”, conheça outros textos relacionados:

Simples para fazer-nos livres

Simples para aperfeiçoar a realidade

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Rafael Gatti é idealizador do projeto Design Simples.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Etica sustentável ou sustentabilidade ética?

O aspecto mais difícil para ter uma sociedade mais justa, humanitária é justamente o ser humano. Somos o problemas e a solução ao mesmo tempo.

"Quando se fala em sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, sempre se menciona os já costumeiros e tradicionais aspectos tecnológicos, econômicos, ecológicos, sociais.

Mas esse discurso não toca no ponto chave para uma futura sociedade sustentável, a ética necessária para construir essa sociedade.

A ética pode ser definida como um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade.

Constatamos que até agora os nossos valores morais e princípios guiados por um capitalismo selvagem ou decapitalismo (decapitação) nos levaram a presente crise global financeira e ecológica.

No campo complexo e ambíguo da relação da ética e a sustentabilidade, temos como um exemplo as indústrias do cigarro, álcool (indústrias da morte).

Essa abordagem é necessária, já que a pergunta central é:

Como poderemos construir e depois (con)viver em uma sociedade sustentável no futuro com as industrias da morte?

Uma sociedade sustentável, teoricamente, implica numa sociedade com mais qualidade de vida e respeito a toda forma de vida.

O ponto é que as indústrias da morte vão contra o que representa ou desejamos de uma sociedade sustentável.

De acordo com a World Health Organization, o cigarro mata por ano cinco milhões de pessoas no mundo, uma pessoa cada seis segundos, sendo o maior problema de saúde publica mundial.

O álcool mata 2.5 milhões de pessoas por ano e representa um obstáculo para o desenvolvimento individual e social da sociedade. Além das mortes relacionadas ao álcool como crime e acidentes de carro.

Quais seriam os custos sociais do alcoolismo e do tabagismo, no sistema de saúde do país (hospitais, tratamentos), e no sistema econômico-produtivo?

Há um custo social-econômico derivado dessas cifras, um custo até agora bancado pela sociedade e Estado, e não pelas empresas responsáveis pelo consumo de seus produtos.

São as chamadas “externalizações negativas”: quando a produção e consumo de certo bem, impõem um custo externo à terceiras partes.

Essa terceira parte seria o consumidor, cujo consumo de cigarro e álcool gera um custo externo derivando daí um custo social.

Além das mortes e sofrimentos causados pelas indústrias da morte, há também o consumo de recursos naturais na fabricação do seu produto, os chamados custos externos da produção ou destruição do meio ambiente.

Mas quando a ética das indústrias da morte é o lucro, sem nenhuma preocupação pela vida humana e muito menos pelo meio ambiente, como se administrará essa questão mais adiante?

Mas sejamos justos, as indústrias da morte não obrigam ninguém a consumir, a sociedade como um todo, com a publicidade e a mídia, iludem e enganam o consumidor, levando a um consumo antes mesmo da adolescência no seu circulo social.

Como podemos construir uma sociedade com qualidade de vida, e respeito pela vida, se existe essa contradição profunda do espírito humano com as indústrias da morte e com outros aspectos de sua propia existência?

Estas indústrias, em algum momento, e contra a sua vontade, serão obrigadas, a incluir esse custo no produto, ou serão responsáveis por bancar o custo social gerado pelas externalidades negativas do consumo de seu produto.

Ou então, por favor,deixemos de ser idealistas e ingênuos, e encaremos a vida como ela é e como será, tenhamos uma sociedade sustentável tecnologicamente, logisticamente perfeita e eticamente imperfeita com todos os seus defeitos humanos; afinal uma futura sociedade sustentável nunca será um lugar perfeito, feliz e justo como a sociedade representada no filme Nosso Lar.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Design e Desenvolvimento Sustentável

No dia 20 de agosto de 2009 tivemos a presença do arquiteto e designer Marco Capellini da Design & Consulting e Matrec de Milão e Roma, para duas palestras programadas; uma na Fiesp e outra na Fundação Getúlio Vargas.

Segue-se um artigo que escrevi a partir da palestra de Capellilni.

A temática foi – Eco Design e a Construção do Futuro Sustentável.

Capellini possue uma vasta experiência metodológica e pragmática para o desenvolvimento de produtos e serviços sustentáveis.

Como ele mesmo cita, a palavra sustentabilidade está muito desgastada e muitos nem sabem bem o que ela significa. Nos últimos anos temos observado uma crescente preocupação das autoridades, associações ambientalistas e científicas com as questões ambientais, sugerindo prováveis catástrofes para o nosso planeta.

Infelizmente o nosso sistema produtivo ainda provém de uma noção de bem estar construido pela mente social, num contexto industrial localizado no último século na Europa e na América do Norte, onde a compreensão dos limites era escarsa e os recursos naturais eram dados por certo. Era o bem estar baseado no produto.

No começo da era industrial com o desenvolvimento da tecnologia e da ciência foi possível a materialização dos serviços na forma de produtos, por exemplo, os serviços de lavanderia deram surgimento às máquinas de lavar roupa, serviços de tocar música, rádios, vitrolas ou gravadores. A industrialização possiblitou a democratização do acesso, aumentando-se a quantidade de produtos disponíveis por preços cada vez menores.

Isto trouxe uma forma particular de bem estar, o bem estar de possuir, depois possuir para aparecer, para ter status, e consumir mais e mais produtos, o que caraterizou um modelo atual insustentável de produção e consumo. O problema é que esta noção de bem estar que permanece até hoje, é insustentável.

Para tanto, têm surgido uma série de normas que tentam coibir o uso desenfreado dos recursos naturais do nosso planeta, intervêm nos processos de produção que causam poluição, exigem tratamentos contra poluição dos efeitos criados por produtos industriais e finalmente tentam reorientar o comportamento social através do consumo sustentável.

Alguma coisa está mudando isto todos nós estamos percebendo.

Nunca as campanhas publicitárias se orientaram tanto para a venda de produtos ecológicos como hoje. Surgiram centenas de produtos mais “verdes”, leves, menores, mais baratos, feitos para serem consumidos mais rapidamente. Foram feitos também para conversar com a moda, como relógios que mudam em cada virada de estação, celulares e câmeras. Produtos que se aproximam da efemeridade e do descarte absoluto. Este tipo de produto e de campanha é chamada de “green washing” (lavagem verde). Este descarte sem critério ou afetividade, faz que sejamos a geração do”throw away”, sem nenhuma herança cultural para deixar para as futuras gerações.

Fazem certificações e marcas ambientais mas também arriscam de criar mais confusão do que informação.

Será que existe verdade em tudo o que dizem? E como nós poderemos saber?

A sustentabilidade não pode ser medida, pesada, tocada ou cheirada.

Ela só pode ser integrada ao produto através dos valores ambientais, sociais, e econômicos.

Materiais, processos produtivos, transporte, consumo e fim de vida são todos os aspectos que caracterizam a sustentabilidade de um produto. A tarefa dos designers e das empresas consiste em criar e produzir novos produtos levando em consideração todos os aspectos ambientais e sociais.

A tarefa do Designer é aquela de produrar encontrar a melhor sustentabilidade do produto através da escolha de materiais primários ou virgens e secundários (renováveis ou não) ou reciclados (pré ou pós consumo); dos processos produtivos; embalagem; sistemas de transporte; estocagem e funções de uso, sem esquecer a questão do descarte (pós uso). Esta última devendo-se pensar se o produto será restaurado, recuperado ou se se perderá por inteiro.

A tarefa da Empresa é de continuamente aperfeiçoar-se na escolha responsável de materiais, tecnologias e funcionalidades. Não basta vender um produto com a palavra Eco. Mas sim produzir valor de um modo competitivo, oferecendo para seus consumidores e para a sociedade em geral, soluções para garantir ou melhorar seu bem estar enquanto consumindo menos recursos e regenerando a qualidade do seu contexto socio ambiental.

A tarefa do Consumidor é aquela de conscientizar-se que tem uma grande força. Ele vai decidir o que comprar e usar e vai legitimar a existência de um produto ou serviço. É um consumo crítico. Um consumismo verde. Todas as pessoas devem agir como co-designers e co-produtores. Repensar no conceito de bem estar. Ao invés do consumo exacerbado consumir menos com mais qualidade. Descartar menos.

Entretanto um dos pontos mais enfatizados por Capellini na sua palestra foi que o consumidor só poderá executar a sua tarefa se os aspectos de sustentabilidade presentes no produto forem comunicados.

Sem Comunicação ou Informação o usuário não poderá ser formado. Não terá condições de reconhecer, comparar e escolher o valor socio-ambiental de um produto.

Suzana M. Sacchi Padovano
Mestre Designer Industrial
Studio Sacchi Designers
NUTAU/USP – Consultora em design industrial

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