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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Mentira e Design

* texto originalmente publicado no Filosofia do Design (06/10/2011).


Desde pequenos nós escutamos, em diversas ocasiões, o conselho “seja você mesmo”. É uma tarefa difícil, pois ela pressupõe que já sabemos o que somos. Partindo do mesmo pressuposto, os designers procuram projetar algo “diferente” que nos permita continuar sendo aquilo que (achamos que) somos: alguém diferente dos outros.

Mas tentar “ser diferente” significa, no fundo, reivindicar por um direito que supostamente todos nós temos: respeito, dignidade, igualdade, etc. Todo mundo tem o direito de ser diferente. Então podemos reconhecer aqui o seguinte paradoxo: a igualdade é o fetiche de quem quer ser diferente. Ou: ser você mesmo implica ser igual aos outros. Acontece que “ser você mesmo” pode se tornar apenas um eufemismo para “zona de conforto” na medida em que nos recusamos a mudar quem somos, como uma tentativa de fazer uma mentira ser verdade.

No entanto, sinceramente não vejo nada de errado nisso. Errado é fingir que isso não acontece. Fingir que podemos deixar de mentir sobre nós mesmos. Se você acha que não mente sobre si mesmo(a), você tende a procurar coisas e pessoas tão sinceras quanto você. Ou seja, algo ou alguém que confirme a sua verdade, que compartilhe de seus medos, que mantenha seu mundo em segurança.

Claro que, assim como a maioria dos relacionamentos, o Design não escapa deste fingimento. Mas o que aconteceria se, ao invés de continuarmos fingindo, nós assumíssemos a mentira que somos? Reconheceríamos que a mentira pode nos oferecer certa liberdade: ela nos permite negociar o que somos, nossas verdades, nossos preconceitos, nossos ideais.

Esta negociação pode ser movida pela conveniência ou aceitação social – ou pela garantia da comida na mesa –, mas nada impede que a estratégia seja outra: a negociação em si. Permitam-me um exemplo. O filme Joana d’Arc de Luc Besson retrata a determinação e fé inabaláveis de Joana d’Arc em sua “missão divina”. Mas como a mensageira de Deus não teria mais serventia após a Guerra dos Cem Anos, ela é capturada pelos ingleses e condenada à fogueira por heresia. Nesta parte, Joana d’Arc (Milla Jovovich) começa a conversar com um senhor imaginário (Dustin Hoffman) que a questiona sobre sua suposta missão divina.

Em um primeiro momento, Joana reconhece que sua vaidade heroica passou por cima da vontade de Deus. Mas quando ela assina uma carta de retratação, aquele senhor imaginário lhe questiona: onde está sua fé agora? Joana então percebe que não havia missão nenhuma, que ela não era “enviada por Deus”, e se arrepende de tamanha blasfêmia. “Agora você pode ir para a fogueira”, o senhor responde, “pois finalmente você cumpriu com sua missão”.

Embora este diálogo esteja mais ligado à ideia de redenção, meu ponto é que não podemos negociar alguma coisa sem a possibilidade de perder esta coisa – ou seja, sem a possibilidade desta coisa ser uma mentira. Por mais que a mentira nos deixe desconfortáveis, inseguros, perdidos, uma pessoa que procura a verdade o tempo inteiro não negocia coisa alguma. É preciso assumir certas mentiras para que determinadas “verdades” tenham mais valor.

Obviamente não estou dizendo que deveríamos mentir mais – assumir é diferente de incitar. Mas pensando em Design e especialmente em processos criativos, podemos reconhecer que a mentira é capaz de atribuir novas verdades aos projetos, retirando-os das regras e enquadramentos que lhes são ordinariamente impostos.

As pessoas não querem apenas um bom carro, elas querem um carro que escale uma montanha, mesmo sabendo que é mentira. Neste sentido, mentir não significa necessariamente enganar as pessoas – quem se engana é o designer que tenta fazer isso. Aliás, o que me parece mais difícil no Design, e ao mesmo tempo mais belo, é justamente conseguir revelar a mentira das pessoas que fingem não mentir.

Significa tirar o “seja você mesmo” da zona de conforto e negociar novos modos de pensar e de sentir. Claro que isso é pedir demais (aos designers e às pessoas), pois geralmente é mais fácil e desejável continuar “empurrando com a barriga”. Mas a sutileza (o mais difícil e mais belo) está na intensidade que esta mentira verdadeira pode proporcionar: quando ser você mesmo é tão difícil e tão belo quanto deixar de ser você mesmo.

“Que importa, afinal? As mentiras não conduzem finalmente ao caminho da verdade? E minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tendem todas para o mesmo fim, não têm o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas se, em ambos os casos, são representativas do que fui e do que sou? Pode-se, às vezes, ver mais claro em quem mente do que em quem fala a verdade. A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto” – Albert Camus em A queda (Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 90-91).



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