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sábado, 22 de junho de 2013

Para quê criar produtos?

Caros leitores do Falando

Andei meio sumida por aqui devido à falta de tempo com muitos projetos e viagens, até receber uma nova convocação do Dan Nishiwaki para postar algo. Muito bem: como meu artigo 'Designer X Projetista' continua no topo da lista Top 10 deste blog e rendeu muitas discussões (e comentários totalmente desfocados do assunto original), decidi voltar às polêmicas que adoro.


Mas antes de escrever algo novo quero contribuir com a discussão do texto 'Consumismo, obsolescência, design e o mito da sustentabilidade', do colega Rafael Morgan. Os questionamentos a respeito da ética e da responsabilidade do designer na criação de novos produtos são legítimos e ocorrem desde o nascimento da 'sociedade de consumo'. A cada período histórico a sociedade tem novos desafios a cumprir rumo à sobrevivência do planeta e das gerações futuras. Houve períodos em que a humanidade se mobilizou para registrar sua história, para conter doenças, para produzir ou acabar com as guerras. Hoje vemos nosso planeta ameaçado, e portanto a pauta da sociedade contemporânea é preservar recursos. Ponto final.


Na minha humilde opinião (e do alto dos meus 30 anos de carreira como designer), essa discussão toda sobre o consumo nocivo é bobagem porque cada um de nós tem seus valores, desejos e necessidades (principalmente aqueles que agora participam de uma economia emergente e podem realizar seus sonhos de conforto e status). O designer não tem a responsabilidade de catequizar a sociedade, impondo padrões de consumo. O papel do designer é contribuir para que a roda da economia gire de forma eficiente, criando produtos sintonizados com seu tempo e, como a questão ambiental é importante, que seja contemplada em seus projetos. 


Para o colega Artur, que perguntou pra que criar? porque ser designer, se já existem cadeiras, mesas, tudo? eu respondo: 

1. Porque vivemos num mundo material (às vezes materialista), e nos acostumamos com a funcionalidade e tecnologia dos objetos para facilitar nossas vidas. Aqui entra o trabalho do designer.


2. Porque precisamos de beleza para tornar nossas vidas suportáveis e prazerosas (até os Shakers, que produziam móveis e ferramentas para seu próprio uso baseados nos preceitos da simplicidade, sem elementos supérfluos ou decorativos, buscaram a beleza através da perfeição, pureza, ordem, durabilidade, funcionalidade e utilidade). Aqui entra o trabalho de designer.


3. Porque vivemos neste mundo desenhado a partir da Revolução Comercial, onde as sociedades se desenvolvem através da compra e venda de produtos. Aqui entra o trabalho de designer.


Abaixo reproduzo um texto que escrevi em 2008, mas que continua atual:


Uma designer em crise


Ao longo da minha vida tenho buscado, paralelamente, desenvolver uma carreira bem sucedida e viver com pouco. Tendo escolhido o Design como forma de expressão e meio de vida, uma carreira bem sucedida significa criar produtos que despertem no consumidor o desejo de possuí-los. E viver com pouco significa evitar o desperdício e exercitar a simplicidade.


Então, não é um enorme contra-senso atuar como Designer e cultivar o desapego? Durante anos me senti confusa com esta questão. Afinal, minha função na sociedade é estimular o consumo e até criar necessidades inexistentes.


Gandhi disse: “Precisamos SER a mudança que queremos VER no mundo”. 

E SER é tão diferente das seduções trazidas pelo TER!

Numa visão mais pessimista, muitos enxergam apenas o lado nocivo da frenética busca por novidades. E neste cenário o designer assume o papel de vilão ao promover a febre de consumo que move mas destrói o planeta. Mas e a busca da beleza, do prazer e do conforto, onde fica?


Minha redenção começou quando descobri que, como designer ou consumidora, é possível “ser coerente”. Mais do que ser ecológica ou ser sustentável (não gosto de palavras da moda), ser coerente é reduzir o consumo, reciclar, reutilizar, reaproveitar, redesenhar... Infelizmente o mundo à nossa volta não é nada coerente. As sociedades conhecem o problema da emissão de gases poluentes, mas nos grandes centros urbanos milhares de pessoas mantêm um segundo veículo para o “dia do rodízio”. Todos conhecem a importância de economizar água, mas quando se trata de lavar o carro na calçada a resposta é “tô pagaaaaando...” E há também os consumidores “responsáveis” que abarrotam o armário com mimos ambientalmente corretos a fim de redimir sua consciência consumista.


O design de produtos tem a função de proporcionar conforto e comodidade, embora quase nunca questionemos profundamente seu impacto para o ambiente e a sociedade. Então, é função do designer questionar o impacto - negativo e positivo - gerado pelo produto que está projetando.


A partir da Revolução Industrial (que nos conduziu à idéia de que a beleza de um objeto depende de sua utilidade e eficiência) a relação homem/objeto vem mudando constantemente. Inúmeros produtos consagrados pelo tempo foram adaptados para finalidades que seus criadores jamais imaginaram, enquanto outros foram reinventados em novos materiais e tecnologias não disponíveis na época de sua criação. A obsolescência embutida em quase todos os produtos e a agressividade de alguns processos produtivos são fatores ainda ignorados e por isso mesmo devem estar na pauta de discussões de toda a sociedade cada vez mais ameaçada.


Mas o chamado “consumo consciente” vem alterando o conceito de beleza dos bens duráveis, que atualmente devem garantir um bom desempenho funcional, ser amigáveis, estar alinhados com o estilo de vida do público-alvo e ainda garantir a sustentabilidade econômica, ambiental e social.


Dizia um professor meu nos tempos de faculdade: “quanto melhor designer você for, menos desenhará”. É claro que demorei um pouco para entender e hoje concordo plenamente. Quando fica preso somente ao ato de desenhar, o designer deixa de pensar, planejar. Com o amadurecimento de nossa atividade no Brasil veremos designers cada vez mais engajados na produção de objetos inteligentes, comprometidos com o desenvolvimento sustentável e livres das crises de consciência.

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