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quarta-feira, 30 de março de 2011

BIC Cristal, 60 anos

(texto adaptado, originalmente publicado no Design Simples)

(texto adaptado, originalmente publicado no Design Simples)

Ano passado a inovadora caneta Bic Cristal, conhecida como um dos maiores ícones do design industrial, completou seis décadas. Através deste post, de espírito crítico, prestarei um tributo que faça jus ao compromisso deste produto com o aperfeiçoamento da realidade que nos cerca. É surpreendente observar como objetos simples e bem resolvidos como este, podem conter sub-partes muito mal resolvidas.

Aqui nosso objeto de discussão será a tampa da caneta. Enquanto encontramos, no seu corpo, uma verdadeira aula de como resolver as funções práticas de um objeto, na sua tampa já percebemos a forte hegemonia do formalismo que se sobrepõe às questões de uso.

Antes, para efeito didático, subdividiremos a tampa da caneta em duas partes: O “corpo principal” de perfil ogival e o “clipe”, aquele prolongamento que ajuda a prender a caneta no bolso da camisa.

Inicialmente, num primeiro olhar sobre sua forma, fica bastante evidente a incoerência que decorre da falta de correspondência entre o perfil circular do corpo da tampa e o perfil hexagonal do corpo da caneta. Se, por suposição, imaginarmos nunca termos visto uma Bic na vida, e nos desafiassem a desenhar o corpo da caneta conhecendo apenas sua tampa, muito dificilmente pensaríamos em algo hexagonal.

Numa observação um pouco mais detalhada, detectamos a presença de uma aerodinâmica sem justificativa para uma tampa de caneta. Trata-se do mais puro “streamlining”, forma de estilismo norte-americano cujo auge ocorreu na década de cinqüenta e que propõe a aplicar linhas aerodinâmicas nos produtos com a finalidade de persuadir os consumidores com mais facilidade. Lançada no ano de 1950, esta caneta possuía originalmente uma tampa cujo corpo principal apresentava uma ponta aguda sem nenhum orifício.

No início dos anos noventa, por motivos de segurança, sua tampa teve que sofrer uma pequena mudança que resultou num enorme ganho para seus usuários: sua ponta foi cortada na parte superior, eliminando assim a ponta aguda e ao mesmo tempo gerando uma abertura para passagem de ar. Com isso as crianças não conseguiriam mais sugar acidentalmente a tampinha da caneta que, como projéteis, feririam o fundo de suas gargantas no momento do dever de casa.

Mesmo desempenhando muito bem a função de clipe, mantendo a caneta pendurada com firmeza no bolso de uma camisa, um redesenho da tampa da Bic seria muito bem vindo. Seis décadas se passaram desde a sua criação e talvez hoje as pessoas usem mais camisetas do que camisas. E as mulheres, que se emanciparam e passaram a ocupar o mercado de trabalho nesse meio tempo? E as crianças, com todos seus requisitos de segurança?

Convido os leitores a pensarem em quais outras funções, mais adequadas aos dias de hoje, a tampa da caneta poderia atender. Qual seria a tampa ideal para a sétima década desta revolucionária caneta?

Bic Cristal, design: Décolletage Plastique Design Team, 1950.

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Rafael Gatti é idealizador do projeto Design Simples.

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