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terça-feira, 26 de abril de 2011

Pio Manzù e a dimensão social do automóvel

(texto adaptado, originalmente publicado no Design Simples)

Em 1965 era apresentado o Autonova Fam. Criado para ser um veículo universal, capaz de atender as diferentes necessidades do transporte de passageiros e bagagens no contexto urbano e também fora da cidade, este projeto de Pio Manzù e Michael Conrad se destacava pela rigorosa síntese formal, detalhado ao extremo, de design “moderno” e simples.

Mais de 40 anos se passaram e a visão de Manzù nunca esteve tão atual. O designer, que veio a falecer num acidente de carro em 1969, sempre buscou combinar a mobilidade individual com o sistema de transporte público e privado.

Ingressou para a HFG Ulm em 1960 e lá teve contato com as aulas de design automotivo de Rodolfo Bonetto, a principal contribuição da escola para sua formação. Já no segundo ano venceu, juntamente com dois colegas, um prestigioso concurso internacional que permitiu a execução de seu proprio projeto pelo famosa Carrozzeria Pininfarina.

Em 1965 se formou com um detalhado projeto para um trator de 80hp, que trazia consigo uma reflexão sobre o estado das máquinas agrícolas na época além de um rigoroso estudo de técnicos e ergonômicos.

Em 1968 era apresentado no Salão do Automóvel de Turim seu protótipo para um táxi urbano. Após uma extensa análise das condições do tráfego urbano e das qualidades práticas de um veículo público, Manzù pôde definir uma série de requisitos principais: compacto, com boa visibilidade, acessível, seguro e de fácil identificação. Nele foram incorporadas idéias inovadoras para a época, como a inclinação do assento do motorista, o sistema de correias para segurar as bagagens no bagageiro, bolsos para guardar mapas no teto (numa época em que não havia GPS), painel com rádio, telefone e taxímetro embutido, dentre outros. Este táxi foi um dos primeiros a serem especialmente concebidos para esta finalidade.

Pio Manzù sempre exerceu o design com muita reflexão crítica. Seu principal compromisso sempre foi com as questões de mobilidade e a real função do design. Seu trabalho reúne diversos ensaios onde a mobilidade no contexto urbano é central, com numerosos projetos de veículos urbanos compactos e complexos sistemas de infra-estruturas viárias.

Ele não só lidou com formas, mas também com problemas técnicos e de produção, resolvendo a viabilidade industrial, processos envolvidos e a própria identidade da marca. Ainda, antecipou questões que foram desenvolvidas em décadas posteriores, como os usos recreativos e esportivos do automóvel, além da atual necessidade de se ampliar o sistema de transporte, harmonizando-o com requisitos ambientais.

Em seus últimos escritos, ele nos encoraja dizendo: “O automóvel hoje é um meio de transporte individual inserido num complexo sistema de transporte coletivo. Estas relações não podem ser ignoradas. Os meios de transporte individuais devem se submeter às restrições impostas pelo sistema. Isto implica em uma forma de transporte que preencha certas funções: daí um veículo funcional. Os designers de automóveis são claramente confrontados com novas estruturas, novas tarefas: evolução científica e tecnológica é um estímulo mas ao mesmo tempo um alerta para que não se permaneça ancorado em posições do presente ou passado”.

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Imagens: Pio Manzù em 1964 na montagem do protótipo Autonova Fam (crédito: gamec), Autonova Fam 1964 (crédito:gamec), projeto “design para um trator de 80hp” 1965 (crédito: blog autodesign), City Taxi 1968 (crédito: blog autodesign), interior do City Taxi (crédito: flickr).

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Mais em: Auto design: Pio Manzù – Pioneer of car and transportation design.

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Rafael Gatti é idealizador do projeto Design Simples.

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