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terça-feira, 30 de março de 2010

Idealismo X Mercado

Aproveitando o gancho do comentário deixado pelo Lucas, estudante da USP no post "Viver de Royalties...", resolvi deixar um post aqui também.

Parece mesmo algo utópico de estudante, ou mesmo um ideal inatingível, mas a questão de simplesmente projetar por nada, ou melhor, projetar só mais um objeto de desejo e estimular o consumismo exagerado que vemos hoje por aí também não me agrada (e olha que já não sou estudante há 2 anos...).

A primeira vez que me deparei com essa questão, que é mto forte e mto presente em mim, foi na hora de escolher o tema de meu TGI (TCC, TFG, ou qualquer outra sigla similar que possa existir para trabalho de graduação).

Não gostaria de fazer meu último projeto da faculdade, projeto esse que poderia ser a minha porta para o mercado de trabalho, de mais um produto para o consumo, ou mais um móvel (nada contra o design de mobiliário, aliás até gosto de projetos de móveis, mas fizemos tantos na faculdade que não queria fazer mais um). Queria algo que tivesse uma função muito clara, não só do ponto de vista "funcional" do objeto, mas também do ponto de vista social.

Foi então que resolvi fazer uma cadeira de rodas. Tá... ok... já fizeram milhares. Mas achei que poderia ser um bom desafio. Alguns professores acharam inviável fazer um projeto de uma cadeira inteira, pois não temos informações da área médica. Outros me negaram como orientanda. Algumas pessoas (fora da área) acharam um tema mórbido e outros disseram que eu queria ganhar o prêmio nobel da paz. Mas... eu resolvi que ia ser isso e pronto!

A princípio, gostaria de abordar 2 temas que me preocupam como cidadã. O 1º, é a questão da acessibilidade, assunto esse que sempre gostei desde os tempos de técnico em Desenho de Constr. Civil no Liceu de Artes e Oficios (onde começei a minha formação profissional). O 2º era o reaproveitamento de resíduos sólidos, na época eu estava focada com o problema do descarte do e-lixo, e pensei em trabalhar com plástico proveniente da reciclagem de carcaças de computador.

Acontece que, assim como em vários outros projetos, ao longo da pesquisa o foco foi mudando e pude observar outras questões, pricipalmente sociais, que eu como designer (e não engenheira de materiais e nem fisioterapeuta) poderia abordar e tentar solucionar.

Pude observar uma falha no mercado em relação aos cadeirantes adolescentes, tanto nas suas necessidades ergonômicas quanto ao atendimento da chamada AVD (atividade de vida diária). Como uma cadeira de rodas, que é um objeto que carrega consigo um rótulo de "doença", poderia se tornar um objeto de integração e identidade, para uma fase da vida repleta de transformações e aprovações? (Claro que atendendo à fabricação e ergonomia SEMPRE!)

Questões como essa sempre me acompanham. Mas, logo que comecei a carreira como profissional, me deparei com uma visão defasada de design no mercado, meramente estética e comercial. Muitas vezes, até por falta de conhecimento do verdadeiro trabalho do designer, e por uma exposição erronea de design na mídia, sofremos até preconceito de outros profissionais. Uma vez, já após eu ter me formado, eu estava em um simpósio de adequação postural em cadeira de rodas (repito ADEQUAÇÂO POSTURAL!!!) e os profissionais que estavam lá, médicos, fisio e terapeutas falavam de design como algo inútil só para deixar a cadeira bonita. Mas agora me respondam... o que faria eu, designer, num simpósio de 4 dias de ADEQUAÇÂO POSTURAL, se meu trabalho (segundo eles) é só estético?

Mas, será que parte dessa visão do mercado, não se deve ao que nós profissionais nos propomos a fazer e a apresentar?

Tenho para mim que o mercado brasileiro (digo bras. pq não tenho experiência com o mercado internacional), em sua maioria, ainda não vê o design como ferramenta para desenvolvimento de um projeto, ou até melhoria, como um todo. Ainda rola muito a idéia de que "designer" trabalha só com a parte estética e "desenhista industrial" é projetista mecânico, como se os dois não fossem a mesma profissão e não tivessem uma função projetual além disso.

Será que não depende de nós, profissionais e estudantes, mudarmos essa realidade, já que o mercado de design está em crescimento? Será que se batermos nessa tecla, seremos somente idealistas utópicos frustrados e morreremos de fome? Será que para sobreviver nessa área precisamos nos "vender" ao que o mercado quer, ou ao que eles acham que é a nossa função?

Fica a questão.

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